Com quase um quarto de século já vivido ainda posso me impressionar com algumas coisas.
O fato a seguir relatado aconteceu a poucos metros de mim e me comoveu de tal forma que talvez não consiga relatar com a precisão desejada.
Pois bem.
O ônibus em que eu estava parou num ponto localizado bem em frente ao terminal rodoviário. Como é grande a quantidade de ônibus que ali param, por vezes o trânsito fica lento, fazendo com que os coletivos fiquem alguns minutos por ali até que o fluxo se normalize.
Nesse ínterim olho pela minha janela.
Na calçada havia um homem. Seu aspecto físico era ruim. Um camada de sujo lhe tomava parte do corpo. Sua roupa toda era imunda.
Ele estava deitado sobre uma única folha de papelão.
Até aqui tudo bem, essa é uma cena - infelizmente - bem comum nas cidades brasileiras. Entretanto o que mais me chamou a atenção vem agora.
Sentado sobre aquela folha e com o corpo ligeiramente curvado para a frente, ele fez um sinal familiar para qualquer pessoa: com o dedo indicador da mão direita ele tocou sua testa, o centro de seu peito e depos o lado esquerdo e direito respectivamente. Logo em seguida levou as mãos espalmadas a altura do peito e começou a dizer algumas palavras...
Aquele homem, mesmo sujo, mesmo ao relento, mesmo exposto aos atos de barbárie de qualquer vândalo, mesmo sem saber se teria o que comer no dia seguinte, aquele homem orava.
Mesmo sendo uma prova concreta da impiedade de um Deus, mesmo na posição em que muitos desistiriam, aquele homem orava.
Por mais que eu viva cem anos, jamais saberei o que ele agradeceria. Por mais que viva mil anos, jamais saberei o que levou aquele homem a agradecer algo.
Todavia, por mais que seja eterno, jamais vou me esquecer daquele gesto que me fez compreender que miséria maior é não acreditar que ainda se pode ser feliz.
Tenho muito a agradecer àquele homem.
sábado, 7 de fevereiro de 2009
quarta-feira, 24 de dezembro de 2008
Ele estava triste diante daquelas luzes.
Ele também chorava. Chorava posto que sabia que muito em breve tudo isso passaria e por mais um ano ele seria invisível.
Cada moeda que lhe era jogada funcionava com um relógio em contagem regressiva até alcançar a invisibilidade completa novamente.
Agradecia a cada moeda com a certeza de não ser ouvido, muito embora houvesse um sorriso amarelo no rosto de quem a lançou.
A vida não havia oferecido qualquer mordomia a este homem, que fora concebido e nasceu exatamente como todo mundo.
Suas desgraças estão estampadas em seu olhar, seu medo, sua cabeça baixa, sua tristeza...
Ele também chorava diante daquelas luzes. Ele sabia que todos aqueles olhares que agora lhe achavam simplesmente sumiriam por mais um ano.
Seu reflexo iluminado logo à sua frente contrastava com a obscuridade que a vida lançou sobre sua alma. Já não havia mais esperança naquele homem...e nem sorrisos.
Ao fim de mais um dia resolveu dormir.
Tinha como companhia o relento de todos os dias e o frio cortante da madrugada. Neste dia pôde matar sua fome, o que nem sempre acontece.
Finalmente dormiu e sonhou.
Sonhou que andava pelas ruas e podia cumprimentar as pessoas.Sonhou que era visto e que podia matar sua sede na hora em que ela batesse. Sonhou que cheirava bem e que ninguém mais se afastava dele. Sonhou que sorria...Nesse momento ele chorou e não acordou mais.
Ele também chorava. Chorava posto que sabia que muito em breve tudo isso passaria e por mais um ano ele seria invisível.
Cada moeda que lhe era jogada funcionava com um relógio em contagem regressiva até alcançar a invisibilidade completa novamente.
Agradecia a cada moeda com a certeza de não ser ouvido, muito embora houvesse um sorriso amarelo no rosto de quem a lançou.
A vida não havia oferecido qualquer mordomia a este homem, que fora concebido e nasceu exatamente como todo mundo.
Suas desgraças estão estampadas em seu olhar, seu medo, sua cabeça baixa, sua tristeza...
Ele também chorava diante daquelas luzes. Ele sabia que todos aqueles olhares que agora lhe achavam simplesmente sumiriam por mais um ano.
Seu reflexo iluminado logo à sua frente contrastava com a obscuridade que a vida lançou sobre sua alma. Já não havia mais esperança naquele homem...e nem sorrisos.
Ao fim de mais um dia resolveu dormir.
Tinha como companhia o relento de todos os dias e o frio cortante da madrugada. Neste dia pôde matar sua fome, o que nem sempre acontece.
Finalmente dormiu e sonhou.
Sonhou que andava pelas ruas e podia cumprimentar as pessoas.Sonhou que era visto e que podia matar sua sede na hora em que ela batesse. Sonhou que cheirava bem e que ninguém mais se afastava dele. Sonhou que sorria...Nesse momento ele chorou e não acordou mais.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
Quanto de nós.
Quanto de nós é essência
e quanto é só matéria?
Quanto de nós é vida
e quanto é só passagem?
Quanto de nós é visão
e quanto é olhar?
Quanto de nós é caminhar
e quanto é vagar?
Quanto de nós é sorrir
e quanto é apenas dentes?
Quanto de nós é amar
e quanto é querer?
Quanto de nós é conforto
e quanto é apenas dor?
Quanto de nós é estar aqui
e quanto é já ter ido?
e quanto é só matéria?
Quanto de nós é vida
e quanto é só passagem?
Quanto de nós é visão
e quanto é olhar?
Quanto de nós é caminhar
e quanto é vagar?
Quanto de nós é sorrir
e quanto é apenas dentes?
Quanto de nós é amar
e quanto é querer?
Quanto de nós é conforto
e quanto é apenas dor?
Quanto de nós é estar aqui
e quanto é já ter ido?
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